Comunidade LGBT no mercado de trabalho
Como o Brasil lida com a presença ativa da comunidade LGBT no mercado de trabalho e as inseguranças da comunidade.
Por Ellen Vargas em 21 de novembro 2022, as 15:32
Em 28 de julho de 1969 ocorreu em Nova York a primeira manifestação LGBT do mundo. Após esse dia, foram criadas diversas organizações em prol dos direitos igualitários para a comunidade LGBT. Entretanto, mesmo depois de muitas lutas e ganhos de direitos, ainda existem diversas dificuldades para aqueles da comunidade, tanto em questões da vida em si, quanto no mercado de trabalho.
Apenas em 1990 a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de distúrbios psiquiátricos de sua Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), porém apenas em 2018 a OMS deixou de considerar a transexualidade como uma doença. Mesmo que leis contra a LGBTfobia tenham sidos criadas (ainda que depois dos anos 2000), existem mais de 70 países que consideram LGBT um crime – em alguns julgados como pena de morte, e mesmo “protegidos”, o Brasil ainda é o país onde mais matam LGBT no mundo.
Conseguir um trabalho formal e digno em um país como o Brasil não é fácil, principalmente para aqueles da comunidade LGBT. De acordo com uma pesquisa realizada pela Center for Talent Innovation, 33% das empresas no Brasil não contratariam pessoas LGBTQIA+ para cargos de chefia, e 41% dos funcionários LGBTQIA+ afirmam já terem sofrido algum tipo de discriminação em razão de sua orientação sexual ou identidade de gênero no ambiente de trabalho. Em outra pesquisa, desta vez realizada pela empresa de consultoria Santo Caos, foi constatado que 61% dos funcionários LGBT no Brasil optam por esconder de colegas e gestores a sua orientação sexual por medo de exclusão social e possíveis demissões. Outro dado relacionado à comunidade geral LGBT que é importante ser levantado é uma pesquisa feita pelo LinkedIn: 35% das pessoas que foram entrevistadas já sofreram algum tipo de discriminação em alguma empresa; a pesquisa também revelou que piadas e comentários homofóbicos foram os mais citados entre as formas de discriminação atual.
A partir dos dados apresentados, é possível perceber que a principal dificuldade dos LGBT no mercado de trabalho é a homofobia. Mesmo com a existência da Lei 7.716/1989, não existe nenhum órgão de monitoramento para garantir que essa lei seja cumprida, e dificilmente alguém que pratica atos de homofobia ou assédio é punido corretamente, seja pela justiça falha do Brasil, ou pela falta de coragem da vítima de denunciar o ocorrido.
Se tratando de transexuais, o assunto fica ainda mais delicado. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) levantados em 2020, apenas 4% das pessoas transexuais possuem emprego formal, 6% possuem emprego informal e cerca de 90% trabalham com prostituição.
“A prostituição é uma realidade na vida de mulheres trans, infelizmente, já que muitas de nós são expulsas de casa ainda adolescente, como aconteceu comigo. Sem estudo e oportunidade, essa foi a única chance que me restou. E não é coisa da nossa cabeça, é real”, diz influenciadora e atriz Ariadna Arantes. Ainda adolescente Ariadna teve seu primeiro trabalho como office “boy", já nessa época ela possuía um jeito afeminado e se sentia na obrigação de “disfarçar”, além de “engrossar a voz” por medo de ser excluída e perder o emprego.
A atual assessora de financiamento da Prefeitura de Francisco Morato, Larissa Raniel, também conta um pouco de sua dificuldade, de não ter sido aceita em trabalhos formais por estar fora dos padrões - “Quando uma mulher trans e travesti se descobre, a prostituição é a profissão que nos acolhe. Nossa primeira porta é a esquina”. “A nossa escola é a esquina pela falta de oportunidade. Hoje, muitas de nós pensam mais em estudar e correm atrás de capacitação, mas do que adianta ser capacitada e não ter uma chance de exercer? Esse é um medo nosso”.
Os relatos acima são de duas mulheres que tiveram que se esforçar o máximo possível para conseguir viver com dignidade depois de sofrer muito na mão do mundo. São um símbolo de resistência, mas a luta ainda está longe de acabar. Depois da primeira manifestação em 1969, houve muitas mudanças, muitas vitórias, entretanto, é de conhecimento geral que essa luta não ainda não chegou nem na metade de seu caminho.
Entre 2019 até os dias de hoje, a inclusão LGBT é uma pauta deveras importante em grandes e pequenas empresas, principalmente pelo fato de que se estima que companhias com times executivos com diversidade de gênero sejam até 33% mais lucrativas. Porém, ainda assim, garantir oportunidades igualitárias de desenvolvimento e crescimento de carreira é um dos maiores desafios para a comunidade.
Mesmo que em passos curtos, a comunidade LGBT vem ganhando cada vez mais espaços “seguros”. Como a Disney, que está apostando muito no público LGBT recentemente, e, mesmo que só visando lucro, ainda é um espaço a mais conquistado pela comunidade. E isso, mesmo que pouco, reflete a consciência e empatia das empresas com um dos temas mais relevantes do mundo atualmente. O incentivo ao público LGBT no mercado de trabalho também é um impulso à diversidade, que promove novas visões e referências dentro das empresas, criando, assim, um ambiente muito mais favorável à inovação.
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